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sexta-feira, 30 de setembro de 2011
Um Espião no Dragão - 3ª Parte, Regresso a casa
Uma semana depois do jogo, fecho as crónicas dessa aventura na deslocação ao Porto...
Terminado o jogo ponho-me a caminho de Campanhã para regressar a Lisboa. Tendo em conta a hora, tinha 2 opções:
- Apanhar o Comboio Regional Porto-Lisboa, que saía às 1:30 e chegava à Gare do Oriente pelas 6:00.
- Conseguir entrar num dos 2 comboios especiais que transportavam os bravos adeptos do Benfica que tinham ido ao Dragão.
Entro na estação e está montado o circo: por um lado forte policiamento entre os comboios da liberdade e o resto da estação. Por outro um grupo, ruidoso mas pouco numeroso de adeptos do Porto que estava ali para algo mais do que apanhar o comboio...
Vou ao cacifo buscar a mochila e encaminho-me para as linhas 8 e 9 onde estão os comboios da liberdade. Primeiro obstáculo: quer a polícia, quer o segurança da estação não me deixam passar porque não venho com as "claques". Explico que sou do Benfica, que estive no estádio e que apenas quero voltar a casa... Irredutíveis, barram-me o caminho e dizem que pelo túnel da estação não posso passar.
Ok, por aqui não dá, vamos tentar entrar por onde os adeptos do Benfica vão chegar. Dou a volta à estação e pelas ruas mais esconças e escuras daquela zona chego à entrada secundária de Campanhã. Voltam a barrar-me a passagem pelos mesmos motivos. Se ao menos tivesse um cachecol ou camisola do Benfica, ainda me deixariam passar...
Regresso à estação e fico a ver sair os comboios da liberdade para Lisboa. Sinto-me como um prisioneiro que vê ali a sua última chance para a liberdade... Os comboios partem, a polícia levanta o cerco e fico à espera, 2 longas horas, pelo Regional... Eventualmente os tipos do Porto também desmobilizaram, quando viram que ali já não havia motivo de interesse.
Depois, 5 horas de viagem entre Porto e Lisboa, paragens em sítios como Esmoriz, Oliveira do Bairro, Pampilhosa, Soure, Caxarias, Riachos, Mato de Miranda, Setil, Reguengo/Pontevel, Virtudes entre muitos outros. Pouco dormi, quer pelo incómodo dos bancos, quer pela adrenalina do jogo e das aventuras desse dia...
Desembarco no Oriente às 6:07 da manhã, noite escura ainda e a caminho do carro, pela primeira vez em mutas horas, grito a plenos pulmões...BENFICA!!! Tinha falta disto...
Chego a casa podre de cansaço mas já com o jornal, gloriosas notícias, debaixo do braço... Fomos grandes nesse dia. Obrigado a todos os que, contra tudo e todos, foram ao Dragão e gritaram bem alto o nosso nome. Ganhei outro respeito a todos vocês!
M.
PS: Apesar de não concordar com muito do que se passa no reino do Dragão, gosto da cidade do Porto e das pessoas que lá vivem. Mais, tenho a certeza que existe no FC Porto muita gente que, rivalidades à parte, são bastante racionais e vivem o desporto e o futebol como ele é. À pessoa que me convidou e me permitiu viver esta aventura, um grande abraço e obrigado pela oportunidade que espero poder retribuir um dia!
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segunda-feira, 26 de setembro de 2011
Um Espião no Dragão - 2ª Parte, Behind Enemy Lines
Estão a ver aquele ponto vermelho na bancada? Sou eu!!!
Infiltrado em território inimigo, tinha conseguido chegar ao objectivo sem ser detectado. Apesar de perigosa, a viagem até agora tinha corrido pelo melhor...
Entro no Estádio, depois da habitual busca. De repente vejo-me na bancada central do Dragão, rodeado de adeptos e simpatizantes do FC Porto. Mais uma vez, não se vislumbra qualquer referência ao Benfica a não ser naquele canto do topo Norte. E os nossos heróis no campo, claro.
Surpreendeu-me que tivessem apresentado a nossa equipa, que a nossa bandeira tivesse a mesma dimensão da do FC. Porto e que não nos tivessem discriminado na habitual antecipação do jogo. Só mais tarde soube que estavam presentes delegados da UEFA...aaahhhhhh!!!
Nas bancadas, o habitual comportamento face à nossa equipa, aos jogadores e equipa técnica. Business as Usual. Antes do apito, apanho atrás de mim um comentário do género "tu já viste que não há um único benfiquista aqui?"..."pois", responde outro,"estão escondidos pelos camarotes e ali na bancada, que tristes"... Mal sabiam que estava ali um "LAMPIÃO"!!!
Não sabem o orgulho que senti quando os nossos 2500 bravos começam a apoiar a nossa equipa e a fazer tanto barulho quanto os 47500 portistas... Vieram-me as lágrimas aos olhos e não foi por me doer ver tanto azul à minha frente...
Todos os espiões sabem que a pior coisa que lhes pode acontecer é, no meio de uma missão, serem desmascarados. Aliás, nos filmes deste género, há sempre um vilão que conhece o herói e o denuncia para o pôr em perigo... E não é que no meio de 50000 pessoas, consegui sentar-me ao lado de um colega de trabalho!!! Vá lá que não me reconheceu como sendo do Benfica senão...
Começa o jogo e a minha vida complica-se... É que a cada jogada da nossa equipa, a cada simulação de um portista, a cada erro do árbitro só me apetece gritar e puxar pelos nossos... Não há pior situação que querer fazê-lo mas sentir que isso é colocar uma corda no pescoço... Ali estava eu no meio dos fanáticos, a desejar ser teletransportado para perto dos nossos... Acreditem, é das piores sensações do mundo... Pelo menos estava a uns metros do nosso banco e conseguia quase ouvir o que diziam entre eles!
A primeira parte foi má para nós, com todos os que me rodeavam em festa, afirmando que "este ano vai ser como o ano passado..." e "estes estão pior do que quando levaram 5-0". Depois o golo... e eu calado, tentando não me manifestar. As simulações de agressões, o jogo sujo, as maneira como comentavam o jogo... Finalmente o intervalo, bebo qualquer coisa para me acalmar... Ao ver aquele ambiente percebi que por muitos anos que passem, aquela nunca será a minha praia... Felizmente.
Assim que me sento para a 2ª parte... GGGGOOOOOLLLLLLLOOOOOOOOO!!!! Salto do banco apenas para me sentar logo a seguir, tentando não "dar bandeira"... Sai um balde de água gelada para todos os que me rodeiam! Voltámos diferentes do intervalo, a arriscar mais e a perceber que talvez a derrota não seja assim tão inevitável. O Porto marca de novo e regressa toda a lenga-lenga anti-benfica... Mas nota-se nervosismo, começam as bocas aos jogadores e treinador do Porto... Percebe-se que Vítor Pereira não controla o jogo e as substituições desmontam o domínio do Porto. O Benfica cresce e a minha esperança aumenta... De repente, à minha frente, Saviola faz um passe de costas... para onde está isolado Gaitán. Levanto-me e murmuro "vai...vai...vai"... Ele ouve-me e vai, corre, puxa da culatra atrás e... está lá dentro, TOMAAAAAAAA!!!
Largo um "FILHO DA P#&%" e fica tudo a olhar para mim... Como barulho de fundo os nossos festejam e calam o Dragão, se alguém merece festejar são vocês que tanto aguentaram antes e durante o jogo... À minha volta o coro de assobios e palavrões contra os de vermelho (mas também contra a equipa do Porto) aumenta... "Como é que é possível?" dizem... Sento-me e respiro fundo... Penso para mim que ainda vamos ganhar isto!!! Mas não, ficamos pelo empate, nada mau. Depois do jogo, mais que o Benfica, são os jogadores e treinador o alvo dos portistas. Percebo que começa a ser posta em causa a sua continuidade, ainda vai demorar mas a pressão é cada vez maior!
Fico sentado no meu lugar a respirar de alívio, sinto que valeu a pena mas que é capaz de ter sido uma experência a não repetir. Olho para o topo Norte do estádio e para os nossos jogadores a saírem para os balneários: "vocês hoje foram todos enormes". Sou dos últimos a sair, telefono para casa e troco SMS e mensagens no FB com quem acompanhou o jogo...
Regresso a Campanhã com um sorriso do mundo no coração e um ar de vitória... À minha volta, no Metro, só vejo decepção ("custa não custa?"), tristeza e raiva... Pouco me importa, o que quero é voltar a casa depois da MISSÃO CUMPRIDA!!!
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Um Espião no Dragão - 1ª Parte, A Viagem
"Go with the flow, blend in. Maintain a natural pace"
The Moscow Rules - CIA
No final do Benfica-Manchester, recebo uma mensagem: "Queres vir ao Porto ver o jogo com o Benfica?"
A resposta pronta é: Sim!!! Regressar ao Dragão, para mais num jogo explosivo como este, não estava nos meus planos mas... Para agravar o convite colocava-me numa das bancadas dos adeptos do FC Porto... Mesmo assim, aceitei. Teria que ser discreto e, mais importante, regressar inteiro... A única regra que impus a mim mesmo: recusava-me a vestir/usar qualquer peça que me identificasse como adepto do Porto (tudo menos isso...).
Em todas as histórias de espiões, o herói viaja de comboio. Também a ideia de ir e vir a conduzir não me agrada. Então, comboio! Compro bilhete de ida no Alfa Pendular, de regresso ou apanho o regional, ou tento regressar com os comboios especiais que trazem de volta os nossos bravos adeptos que foram ao Dragão (mais à frente falo deles).
Chega 6ª-Feira!
Manhã de trabalho normal e pela hora de almoço, mochila às costas. Um livro, carregador de telemóvel para assegurar as comunicações, alguns víveres e um cachecol do Benfica que, à última hora, fica para trás...
Corrida para apanhar o comboio e viagem tranquila até Campanhã onde chego ao início da tarde. Curiosidade: nessa altura são mais os adeptos assumidos do Benfica ali do que os do Porto! Já se nota o aparato policial que vai receber os nossos adeptos mas, de resto, tudo ainda calmo. Como faltam ainda algumas horas para o jogo, faço-me de turista e aproveito para regressar a sítios de que gosto no Porto.
A 2 horas do apito inicial guardo a mochila num cacifo (também um elemento sempre presente nas estórias de espiões...) em Campanhã e, apenas com o essencial, rumo de metro ao Estádio do Dragão.
No caminho absorvo todos os comentários e "bocas" anti-benfiquistas com um sorriso amarelo, nada de anormal antes de um jogo destes, aqui como em Lisboa. Saio do Metro e desemboco no Estádio do Dragão... Gente, muita gente e nem um único cachecol vermelho, nem sequer uma camisola encarnada. Ao longe chega o nosso autocarro e refugio-me naquele vermelho para seguir em frente. Ali vão os nossos heróis, penso... Que saibam estar à altura!
"Em Roma, sê romano..."
Passo por fora da zona onde se encontram os nossos adeptos, já lá dentro, e oiço o coro de vozes que de fora, tentam abafar os nossos cânticos. Sem sucesso!!! Sorrio e sigo para levantar o meu ingresso. Na fila volto a ouvir os habituais chorrilhos e "mimos" vindos de todos os lados... Percebo hostilidade, agressividade na voz de quem fala do jogo e do adversário do Porto, esta noite... Tudo isso esconde medo... Sim, medo... Mesmo no seu estádio, sem oposição aparente, mesmo depois de terem ganho tudo e a todos, os do Porto vão para este jogo com receio de nós... E isso é bom... Sorrio, desta vez sem me conter...
"Contém-te, pá, não ganhas nada em reagir..."
De repente sinto-me, de facto, no meio de uma aventura de espiões. Como um israelita a passear-se pelas ruas de Teerão ou um americano em plena Moscovo na Guerra Fria, tudo e todos à minha volta, se puderem, estão prontos para me fazer a folha... De início o sentimento é: que raio faço eu aqui e onde me vim meter. Depois sentes que se te misturares e se não mostrares medo, tudo vai correr bem. Depois de alguns minutos em que sentes que consegues, tudo se torna mais fácil!
Já com o bilhete na mão, dirijo-me para a entrada. Só então me apercebo que o convite era para a "Tribuna VIP"... Não me bastava ser um espião inglês em Berlim durante a Segunda Guerra Mundial...ainda tinha que ir meter-me nas cadeiras da frente para ouvir o Fuhrer ao lado dos seus mais próximos colaboradores... Entro no Estádio e dirijo-me ao meu lugar... que mais virá a seguir???
M.
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